Os Caminhos

Caminhante na estrada
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As peregrinações ao túmulo do Apóstolo Santiago fazem-se por uma vasta rede de estradas e itinerários que se desenham e se consolidam por quase toda a europa dando origem a um conjunto de caminhos globalmente conhecidos como: O Caminho Primitivo, O Caminho Francês, A Via da Prata, O Caminho Inglês, O Caminho do Norte, A Rota do Mar de Arosa e Rio Ulla, O Caminho Finisterra-Muxía e O Caminho Português.

O Caminho Primitivo

É, provavelmente, o mais antigo caminho, unindo Ovídeo a Santiago de Compostela, passando por Lugo. A tradição refere que terá sido usado por Afonso II das Astúrias na sua peregrinação ao túmulo de Santiago.

O Caminho Francês

É o caminho com mais tradição histórica e o mais reconhecido internacionalmente. Não é possível definir com rigor a sua origem. Já era referenciado no século XII no Liber Sancti Jacobi, (conhecido como Códice Calixtino). Nele se registou a forma como os peregrinos, a partir de todo o território da cristandade, chegavam a Santiago de Compostela, através, precisamente, desta rota. A França era atravessada por 4 vias: via turonensis, percorrida por peregrinos do norte da Europa, da Flandres e da zona setentrional de França, abrangendo a cidade de Paris; via lemovicensis, com origem na cidade de Vézelay, usada por peregrinos germânicos e flamengos; via podensis, que entrava em França por Le Puy; via tolosana, que, juntamente com a de podensis, recebia os peregrinos vindos de Itália e da Europa Oriental. As três primeiras vias (via turonensis, via lemovicensis e via podensis) juntavam-se em Saint Jean-Pied-de-Port, constituindo uma única via que entrava na Península Ibérica por Roncesvalles. A via tolosana chegava à Península Ibérica pelo Porto de Samport, juntando-se com a anterior em Puente de la Reina, Navarra. A partir daqui, o Caminho Francês entrava na Galiza, após atravessar o Monte do Cebreiro, em direção a Santiago de Compostela.

A Via da Prata

Começou a ser usada como via peregrinatória a Santiago de Compostela a partir do século XIII, após a conquista da cidade de Sevilha e Córdova, por Fernando II de Castela. Esta via seguia pela antiga estrada romana que ligava Mérida a Astorga, atravessando de Sul a Norte o Oeste da Península Ibérica.

O Caminho Inglês

Este caminho integrava uma rota marítima e terrestre que se potencializa, sobretudo, no século XII. São essencialmente duas as razões que estão na base da utilização regular da rota marítima: a diminuição dos ataques da pirataria normanda e muçulmana, permitindo que a navegação do Atlântico fosse mais segura, e os períodos de confronto militar em território europeu que tornavam perigosos os caminhos usados por peregrinos em trânsito, motivo que propiciou a adoção da alternativa marítima pelo Atlântico. Esta rota era sobretudo frequentada pelos peregrinos da Grã-Bretanha e Irlanda, e tinha como destino os portos do Golfo Ártabro (rias de Ferrol, Betanzos-Ares e do Burgo). Destes portos seguia por terra, em direção a sul, para Compostela.

O Caminho do Norte

Engloba, tal como o Caminho Inglês, uma dupla componente – marítima e terrestre. No primeiro caso, trata-se da utilização das rotas marítimas comerciais fixadas a partir dos portos da Europa Atlântica, com ligação aos portos da Cantábria. No segundo caso, trata-se da utilização do Caminho do Norte que procedia de Baiona e Irun, seguindo a costa da Cantábria em direção à Galiza, chegando a esta província por Ribadeo, e ramificando-se a partir da paróquia de San Xoán de Ove, para voltar a unir-se na cidade de Mondoñedo e seguir daí para Compostela(3).

A Rota do Mar de Arosa e Rio Ulla

Rota marítimo-fluvial que está associada à traslatio - chegada do corpo do apóstolo à Galiza. Segundo a tradição, de regresso à Judeia, após ter pregado na Península Ibérica, Santiago foi condenado à morte por Herodes de Agripa I. No ano de 44, após a sua degolação, os discípulos do apóstolo, (Teodoro e Anastácio) terão recolhido o seu corpo, transportando-o pelo Mediterrâneo até à cidade de Iria Flávia, atual localidade de Pádron na costa galega. Desde aí os mesmos transportaram os restos mortais de Santiago até Libredón, onde o terão sepultado(4).

O Caminho Finisterra-Muxía

É considerado um prolongamento das rotas jacobeias, uma espécie de “continuação taumatúrgica das rotas de peregrinação até ao finis terrae galaico”(5) . Este trajeto inicia-se em Santiago de Compostela e termina no cabo de Finisterra, província da Corunha, o ponto mais ocidental da Europa.
A este local terão vindo os apóstolos de Santiago na tentativa de obtenção de um legado para enterrar o corpo do Apóstolo em Compostela. São feitos prisioneiros e na fuga que entretanto encetam, perseguidos pelas tropas romanas, conseguem atravessar uma ponte que se desmorona à passagem dos militares romanos. Os apóstolos do Santo são salvos. Assim refere o Códice Calixtino (meados do século XII), associando, por isso, Muxia e Finesterra à tradição jacobeia, que estimulou e incentivou no primeiro local o culto da Virxe da Barca e em Finisterra, o Santo Cristo, uma das mais populares devoções na Galiza(6).

O Caminho Português

Os Caminhos para Santiago em território português eram constituídos por uma rede estradas e vias que se concentravam, sobretudo, na zona norte de Portugal como se constata pelo itinerário do denominado Caminho Central (ou Caminho Principal) que entrava na Galiza por Tui, passando por Porriño, Redondela, Pontesampaio, Pontevedra, Caldas de Reis, Valga e Pontecesures, seguindo por Padrón e Santiago de Compostela. A esta zona do território nacional chegava o apelidado Caminho da Costa, um caminho misto, marítimo e terrestre, constituído por três rotas. Uma das rotas chegava à Galiza por A Guarda, passando pelo mosteiro de Oia e por Baiona, por Coruxo e por Santo André de Comesaña. Neste local bifurcava em duas direções - uma que seguia por Coia e Condomiñas e outra por Santa Maria de Castrelos e Santo Tomé de Freixeiro, seguindo ambas depois para Vigo e daqui para Redondela, onde se juntava ao Caminho Central ou Principal. A terceira rota atravessava o rio Minho, chegando a São Pedro da Torre, o ponto de concentração dos peregrinos provenientes de Caminha, Arcos de Valdevez e Ponte de Lima(7).

Tendo ainda o norte de Portugal como ponto de confluência dos caminhos a Santiago, é obrigatório mencionar o Caminho por Braga, um itinerário muito utilizado, em território português, até ao primeiro quartel do século XIV, altura em que se constrói a ponte de Barcelos e se procede à reforma da ponte de Ponte de Lima, situação que favorecerá a alternativa pela estrada real Porto-Valença (Caminho Central) por ser mais retilínea. O itinerário por Braga, foi consolidado a partir da Via XVI, estrada romana que vindo de Lisboa, passava por Santarém, Coimbra e Porto e seguia para Braga e daqui continuava em direção a Ponte de Lima, entroncando no Caminho Central ou Principal.

As Peregrinações a Compostela. Itinerários portugueses

“Alta rraynha senhor Santiago por nos ora.
Partimos de Portugal catar cura a nosso mal”(8)

(Garcia de Resende – Cancioneiro Geral. 1516)

Santiago de Compostela, centro de peregrinação, situado na parte mais ocidental da Europa, no extremo da Península Ibérica, e geograficamente oposto aos dois mais importantes centros de peregrinação da cristandade, Jerusalém e Roma, rapidamente se transforma em polo aglutinador dos que, em nome da fé, percorriam o espaço europeu em busca de conforto, consolo e respostas para os seus problemas, que só um lugar santo lhes podia proporcionar. O aumento dos fluxos peregrinatórios em direção a Santiago de Compostela, a partir do século IX, também se explica à luz das dificuldades crescentes de acesso aos lugares santos da Palestina, devido a conflitos religioso-militares continuados, que tornavam perigosa a peregrinação à Terra Santa, destino de peregrinação por excelência. Consolida-se portanto, a devoção e o culto Jacobeu.

A proximidade de Portugal à Galiza, em particular o norte do país, coloca o território nacional na encruzilhada deste lugar santo e o Caminho Português define-se por uma densa malha de caminhos que se constituíram em função dos pontos geográficos dos peregrinos e que convergem à medida que se aproximam da Galiza. Globalmente, a rede viária medieval portuguesa, nos seus troços principais, foi herdeira das vias romanas, sendo a grande via romana Mérida-Braga, que passava pelo Alentejo, Lisboa, Santarém, Conimbriga, Porto e Braga, um grande eixo viário que se ramificava para Astorga, por Chaves, para Lugo, pela Geira, para Valença e Tui, seguindo até às imediações de Pontevedra, infletindo para Ourense e Lugo(9).

Com o reconhecimento da nacionalidade portuguesa, no século XII, incrementam-se as peregrinações jacobeias. Os trajetos por terra eram complementados por itinerários marítimos, estes diretamente relacionados com as rotas comerciais que ligavam, pelo Atlântico, os portos marítimos portugueses com os da Europa do Norte, trajetos que por norma se ofereciam mais seguros e mais rápidos que os terrestres e eram utilizados sobretudo por estrangeiros. Os portos de Lisboa, Aveiro, Porto, Vila do Conde e Viana do Castelo eram de paragem obrigatória nas rotas comerciais de cabotagem(10).

Por seu turno, os percursos terrestres usados pelos peregrinos são precisamente o das antigas vias romanas que rasgavam o território português. O Caminho por Braga seguia, em grande parte, a Via XVI, passando por Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto e Braga. O Caminho Central ou Principal seguia a Via XIX, que chegava a Braga, Ponte de Lima, Tui, Pontevedra e Lugo.

Estas vias de circulação complementavam-se com uma densa e apertada teia de ruas e pequenos caminhos, que ligavam entre si localidades mais ou menos importantes que se dotaram de um conjunto de infraestruturas.

O que define em essência os itinerários Jacobeus, em território nacional são as paróquias dedicadas a Santiago, a sua implantação nos trajetos peregrinatórios, as capelas construídas em honra do Apóstolo ou dedicadas a S. Gonçalo de Amarante ou S. Roque, devoções que aparecem associadas a Santiago(11).

No caso particular da veneração e culto a Santiago, sabemos que a referência mais antiga em território nacional é a igreja de Castelo do Neiva, Viana do Castelo, sagrada a Santiago em 862(12). Em finais do século X, como é mencionado no Censual de Braga, o número de paróquias instituídas entre o Lima e o Ave, que tinham como orago Santigo, ascendia a mais de vinte. Em todo o território diocesano do Porto, entre o século XVI e XIX, contabilizam-se 28 paróquias que tinham Santiago como Padroeiro(13).

Estes trajetos são também identificados por pontes medievais - estruturas fundamentais na rede viária da Idade Média, fontes, cruzeiros, imagens do Apóstolo - na sua tríplice representação, como apóstolo, peregrino e cavaleiro (mata-mouros), albergues, unidades conventuais associados à peregrinação jacobeia, heráldica, topónimos, confrarias devocionais, festas e lendas(14). Mas destacam-se, igualmente, as referências às barcas de passagem, para atravessamento de rios, gafarias, hospitais e Misericórdias, enfim, estruturas que se fixam nas rotas peregrinatórias ao túmulo do Apóstolo Santiago, constituindo uma complexa rede de assistência e acolhimento, destinadas a receber e a proteger, por amor a Deus, o peregrino, os devotos e romeiros em trânsito.

No Porto, tendo como referência a Catedral, há a mencionar o altar com invocação de Santiago, comentada numa descrição do interior do templo, de finais do século XVII, da autoria do padre Manuel Pereira Novais. O altar estaria localizado junto ao pilar que separava a nave central da nave lateral do lado do evangelho, mas com as modificações operadas no interior da Catedral durante o período de Sede Vacante (1717-1741), o altar de Santiago é transferido para a nave do lado do evangelho (15). A presença deste altar, cuja data de fundação desconhecemos, confirma a consistência do culto e da devoção jacobeia, numa localidade que se tornara ponto de partida e de chegada de itinerários compostelanos. Atualmente esta imagem do século XVIII encontra-se na sala do Capítulo da Casa do Cabido.

Nesta mesma cidade, foi construído em 1307 o Hospital dos Palmeiros, gerido por uma das mais antigas corporações de mesteres (datada do século XIII) - a Confraria dos Sapateiros, com invocação de S. Crispim e S. Crispiano. Torna-se na mais antiga infraestrutura assistencial de que há registo, expressamente vocacionada para o acolhimento de romeiros e peregrinos que se deslocavam a Santiago de Compostela - “pobres Romeyros que vão, e vem para o Senhor San Tiago, e se em elle colhem, e podem colher ao diante”(16). Este hospital localizou-se, até à sua expropriação ocorrida em 1755 e demolição em 1876, a norte da Rua Nova de S. João, frente à rua das Cangostas de Baixo e da Rua da Ponte de S. Domingos, junto ao Convento de São Domingos, na então designada herdade da Ponte de S. Domingos. Adossada ao hospital foi construída a igreja da confraria que será transferida em 1876 para um terreno sito na Rua de S. Jerónimo, atualmente Praça Rainha D. Amélia. Estas expropriações estão precisamente relacionadas com a abertura da Rua Mouzinho da Silveira(17).

O acolhimento e a assistência à comunidade local, a viandantes, romeiros e peregrinos foram assegurados pelas estruturas conventuais existentes na cidade. Mencionamos como mais antigas o Convento de S. Francisco, fundado em 1233, e o de S. Domingos, de 1239. A Misericórdia do Porto, instituída em 1499, centralizará, como aliás sucederá em todas as localidades do reino onde se fundaram Misericórdias, a assistência hospitalar. No caso em questão, como aliás se observou nas Misericórdias das cidades e vilas do litoral, tinham obrigação de prestar auxílio a peregrinos e romeiros. Por alvará de D. Manuel I são anexados à Misericórdia do Porto os hospitais de Santa Clara (Cimo da Vila), Rocamador e, mais tarde, Santo Cristo e S. João Baptista. De fora ficou o Hospital dos Palmeiros(18).

Como se afirmou, S. Roque surge como uma das invocações associadas ao culto Jacobeu. No Porto noticia-se a existência de uma ermida com invocação de S. Roque, ereta em 1659, em frente à galilé da Sé, demolida em 1756. Uma nova capela de S. Roque será construída em 1767-1773, localizada na zona onde existiam os pelames, área renovada urbanisticamente no mesmo período com uma nova praça, a Praça de Santa Ana. Capela e praça foram demolidas em 1877(19).

Os grandes ciclos religiosos, políticos, económicos e sociais marcaram as diferentes fases de vitalidade e decadência das peregrinações jacobeias. A um período de pujança sucede-se, no século XIV, uma fase de acentuado declínio das visitas devocionais ao túmulo do Apóstolo. Um conjunto de fatores desencadeou esse processo regressivo, de entre os quais se deve mencionar a grande crise económica e demográfica da Europa no século XIV, a pandemia da peste bubónica, peste negra, responsável pela dizimação de 1/3 da população europeia, e ainda a crise religiosa no século XVI, que dá origem ao movimento de Reforma e Contra-Reforma que opõe católicos e protestantes. Um novo folgo regenerador surgirá nos séculos XVII e XVIII.

Todavia, olhando para a realidade do Porto, o culto do Apóstolo que na Catedral tinha altar dedicado parece perder importância e significado. Na descrição do interior deste templo, em finais do século XVIII, são referidas como imagens de grande devoção a do Senhor d’ Além - “a esta imagem recorre o povo nas ocasiões de maiores calamidades”(20), a da Senhora da Silva - imagem de forte devoção popular e indiretamente associada à devotio jacobeia, uma vez que, nesse altar, privilegiado às Almas, era celebrada missa antes do enterro do defunto, crença generalizada “para que Nossa Senhora retirasse as silvas do caminho, no trajeto da alma para Santiago”(21). A par destas imagens eram igualmente muito veneradas as relíquias que se achavam na capela-mor, dos mártires S. Pacífico e St.º Aurélio. Por outro lado, na descrição das paróquias portuenses relatadas nas Memórias Paroquiais de 1758 não é feita qualquer menção a paróquias cujo orago fosse Santiago ou cuja devoção jacobeia fosse popularmente notada.

Tudo isto nos leva a concluir que estamos perante uma desaceleração do culto jacobeu, que se acentuará com o advento de novas devoções, estimuladas pela política contrarreformista emanada do Concílio Tridentino, que incentivarão, também, o aparecimento de novos locais de culto. A este propósito importa salientar que, por volta de 1722, na freguesia de Tenões, Braga, renasce o Sacro Monte do Bom Jesus, recuperando-se como lugar de romagem, grande polo de devoção e, por isso, catalisador dos movimentos peregrinatórios que até então se dirigiam para Compostela. Bom Jesus do Monte torna-se no maior santuário cristológico do país. É de notar que, apesar da atração gerada pelo santuário do Bom Jesus de Braga, Compostela continua a atrair romeiros e peregrinos. Há registos, precisamente em Braga, mormente relacionados com a assistência e o auxílio prestados pela Misericórdia e pela Ordem Terceira Franciscana a viajantes e romeiros a caminho de Santiago de Compostela(22).

Outras fases de declínio do culto Jacobeu estão identificadas no conturbado século XIX, em particular a grande crise económica transversal a toda a Europa. As duas grandes guerras mundiais (1914-1918) e (1939-1945) por razões óbvias, enfatizam o declínio das viagens jacobeias.

A recuperação destas peregrinações tem lugar na década de 60 do século XX, o que motivou o Conselho da Europa a declarar, em 1962, o Caminho de Santiago como “Conjunto Histórico-Artístico”. O notório e consistente recrudescimento das peregrinações compostelanas na década de 80 do século XX levou o mesmo Conselho Europeu a declarar os Caminhos de Santiago como o primeiro Itinerário Cultural Europeu. Em 1993 O Caminho de Santiago é declarado, pela UNESCO, Património da Humanidade.
No presente milénio, as viagens peregrinatórias a Santiago de Compostela consolidaram-se, exponenciando o número de peregrinos, crentes e não crentes, que, movidos por um plural leque de razões, empreendem esta viagem. 

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Imagem: Paula Cardona                                                                                        Todos os direitos reservados

O Caminho “Real” dos príncipes, dos reis e das rainhas e de outros altos dignitários da Nobreza e do Clero

Pelo caminho Português passaram homens e mulheres anónimos, mas também altos dignitários do clero e da nobreza, nacionais e estrangeiros. A passagem pela fronteira de Valença, em ambas as direções, aparece mencionada nos relatos de viagens destes peregrinos de estatuto social relevante.

D. Sancha, mulher de Fernando I, o Magno, visitou o túmulo do Apóstolo (1063) por três vezes aquando da conquista de Coimbra. D. Pedro, primeiro bispo de Braga, foi também a Compostela participar no Concílio (1075). D. Hugo, então bispo do Porto, regressará a Compostela, onde tinha sido Arcediago(23).

Há indícios de que os primeiros reis portugueses da dinastia da Borgonha terão feito o caminho peregrinatório: os condes de Portucale, Henrique da Borgonha (Conde D. Henrique) e D. Teresa terão visitado o túmulo do Apóstolo em 1097; seguiram-se D. Afonso II (1220) e D. Sancho II (1244). A rainha portuguesa Isabel de Aragão (Rainha Santa Isabel) fê-lo por duas vezes, em 1325 e 1335, e o rei D. Manuel I, o Venturoso, irá em peregrinação em 1502(24).

De outros notáveis noticia-se Nun’ Álvares Pereira, que terá tentado percorrer, em 1385, o itinerário da Costa que, partindo do Porto, seguia por Vila do Conde e Póvoa do Varzim até Viana do Castelo. O plano não teria sido concretizado(25). Um século depois, D. Filipa, tia da princesa Santa Joana foi em ano jubileu a Compostela(26).

O pintor flamengo Van Eyck, chegado por barco a Lisboa, segue a pé para Santiago de Compostela em 1428(27).O núncio apostólico Monsenhor Fábio Biondo Monalto, patriarca de Jerusalém, e o seu secretário, João Baptista Contonelli, descrevem a viagem de Lisboa a Santiago e de Santiago a Lisboa. Leão de Rosmithal, nobre da Boémia em peregrinação em 1466, chegado a Braga encontra-se com D. Afonso V, seguindo o caminho por Prado, Ponte de Lima, Valença, entrando na Galiza por Tui.O nobre polaco Nicolau Polielovo viajou em 1484, de barco, desde Lisboa a Compostela. No regresso utilizou o itinerário do Caminho Central, passando por Valença, Ponte de Lima, Rates, Porto até chegar a Lisboa.O médico e humanista de Nuremberga Jerónimo Münzer viaja em 1495 de Lisboa a Santiago de Compostela utilizando o Caminho Central português, com passagem pelo Porto, Rates, Barcelos, Ponte de Lima e Valença.

O abade de Claraval, D. Edeme Daulieu, juntamente com o seu secretário, frei Cláudio de Bronseval, percorrem, em visita aos mosteiros cistercienses da Península Ibérica, entre 1531 e 1533, os caminhos compostelanos, tendo deixado um relato muito preciso dos mesmos, particularmente relativamente a infraestruturas e alojamento; Sigismundi Cavalli, Italiano que viaja, em 1568, do Porto para Santiago de Compostela, passa por Braga, Prado, Ponte de Lima, Valença e Tui; o núncio Fábio Biondo Monalto empreende, em 1594, na companhia do seu secretário, João Baptista Contolonieri, uma peregrinação ao santuário do apóstolo Santiago, a partir de Lisboa, parando em São Pedro de Rates. No regresso optou pelo mesmo itinerário, deixando um relato completo pelas localidades por onde passou(28).

O príncipe herdeiro do grão-ducado da Toscana, Cosme de Medicis, viaja em 1669 a Compostela, passando por Portugal. Os relatos da jornada compostelana por terras lusas foram publicados com o título –Relazione del viaggo del Portogallo e Galiza, ilustrados pelo pintor Pier Maria Baldi, que o acompanhava.

O património associado aos caminhos portugueses, pontes, pavimentação de caminhos, hospedarias, hospitais, igrejas, capelas, unidades conventuais, que se começa a consolidar durante o período medieval, é, em grande parte, devedor do mecenato devocional praticado pela aristocracia civil e eclesiástica. Na linha da frente está a coroa, interessada no fomento das peregrinações a Santiago, seguindo-se outros membros da nobreza que viam neste tipo de patrocínio, a possibilidade de sufragar as suas almas e garantir a salvação eterna.

A devoção jacobeia que se manifesta em várias expressões artísticas, a que não é alheia a produção literária, serve também de base de inspiração à poesia trovadoresca, género que ganha expressão na Idade Média Peninsular, ficando conhecida como as trovas galego-portuguesas.

O trovador Airas Nunes, que se supõe ser de origem galega e ativo no século XIII diz sobre Santiago:

Em Santiago, seend'albergado
em mia pousada, chegarom romeus.
Preguntei-os e disserom: - Par Deus,
muito levade'lo caminh'errado!
Ca, se verdade quiserdes achar,
outro caminho convém a buscar,
ca nom sabem aqui dela mandado(29).

 

NOTAS:
(3) GONZÁLEZ-PAZ, Carlos Andrés, 2009 – “La Orden de San Juan de Jerusalén y las peregrinaciones en la Galicia medieval (siglos XII-XIII)”, in População e Sociedade, n.º 17. Porto: CEPESE, p. 10-12
(4) GONZÁLEZ-PAZ, Carlos Andrés, Ob., cit., p. 12-13
(5) GONZÁLEZ-PAZ, Carlos Andrés, Ob., cit., p. 13
(6) Idem, ibidem
Disponível em: <http://camino.xacobeo.es/pt-pt/caminhos/caminho-de-fisterra-muxia> [consult: 13 de fevereiro 2014]
(7) GONZÁLEZ-PAZ, Carlos Andrés, ob. cit., p. 12
(8) MARQUES, José, 1992 - O Culto de S. Tiago no Norte de Portugal. Separata da Revista Lusitana Sacra, 2ª Série, n.º 4. Braga, p. 121
(9) MARQUES, José, 1997 – “Viajar em Portugal nos Séculos XV e XVI”, in Revista da Faculdade de Letras da U.P., História, Vol. XIV. Porto: FLUP, p. 95
(10) MARQUES, José, 1997 – “Viajar em Portugal nos Séculos XV e XVI”, Ob., cit., p. 99
(11) MAGALHÃES, Arlindo de, 1995 – “A Compostela, por caminhos e caminhos…”, in Caminhos Portugueses a Santiago. Itinerários Portugueses. Galiza: Xunta da Galiza e Centro de Artes Tradicionais, p. 329-330. S. Gonçalo peregrinou a Roma e a Jerusalém, familiarizado com as dificuldades com que se deparavam os peregrinos, terá, como refere a tradição, decidido construir, como obra de misericórdia, a ponte de Amarante. As pontes eram infraestruturas fundamentais na Idade Média, a sua existência condicionava, de certa forma, os trajetos Jacobeus, consolidados nos locais onde as mesmas permitiam o atravessamento seguro dos rios. S. Gonçalo, por este feito, torna-se assim, protetor dos Caminhos. Outra devoção paralela que surge ao longo dos caminhos é a de S. Roque, também peregrino e protetor dos empestados.
(12) MARQUES, José, 1992 - O Culto de S. Tiago no Norte de Portugal, Ob., cit., p. 102
(13) MARQUES, José, 1995 – “O Culto de S. Tiago em Portugal e no antigo Ultramar Português”, …”, in Caminhos Portugueses a Santiago. Itinerários Portugueses. Galiza: Xunta da Galiza e Centro de Artes Tradicionais, p. 288-295
(14) MAGALHÃES, Arlindo de, 1995 – “A Compostela, por caminhos e caminhos…”, Ob., cit., p. 329-330
(15) FERREIRA-ALVES, Natália Marinho, 1989 – A arte da talha no Porto na época moderna. Artistas e clientela. Materiais e técnica. Porto: Arquivo Histórico / Câmara Municipal do Porto, vol.I, p. 47-49
(16) DIAS, Geraldo José Amadeu Coelho, 2006 - A Irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano: uma relíquia da Idade Média no Porto moderno, in Estudos em homenagem ao Professor Doutor José Marques. Porto: FLUP, vol. 2, p. 157
(17) DIAS, Geraldo José Amadeu Coelho, 2006 - A Irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano, Ob., cit., p. 147-160. Sobre este assunto consultar ainda: OLIVEIRA, Maria Helena da Rocha, 2001 - A Confraria de S. Crispim e S. Crispiniano e o seu Hospital na Idade Média. Porto: FLUP [Tese de Mestrado]
(18) OLIVEIRA, Maria Helena da Rocha, 2001 - A Confraria de S. Crispim e S. Crispiniano e o seu Hospital na Idade Média. Porto: FLUP [Tese de Mestrado], p. 66 ver também: DIAS, Geraldo José Amadeu Coelho, - A Irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano, Ob., cit., p. 158
(19) FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B, 1988. – O Porto na Época dos Almadas. Arquitectura. Obras Públicas. Porto: Câmara Municipal do Porto,Vol. I, p. 223-226.
(20) COSTA, Agostinho Rebelo da, 1788 – Descrição Topográfica da Cidade do Porto. 2ª ed. A. Magalhães Basto, p. 92
(21) ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, 1995 – “Caminhos Medievais no Norte de Portugal”, Itinerários Portugueses. Galiza: Xunta da Galiza e Centro de Artes Tradicionais, p. 3355
(22) Veja-se o estudo de MORAES, Juliana de Mello, 2010 – “Peregrinos e Viajantes no Norte de Portugal. As esmolas distribuídas pela Ordem Terceira Franciscana de Braga aos irmãos «Passageiros» (1720-1816)”, in Cem Cultura, Espaço & Memória: Revista do CITCEM n.º 1. Porto: Universidade do Porto, p. 263-264
(23) MARQUES, José, 1992, Ob., cit., p. 115-116
(24) MARQUES, José, 1992, Ob., cit., p. 103-105; p. 117-118
(25) MARQUES, José, 1992, Ob., cit., p.115
(26) MARQUES, José, 1992, Ob., cit., p.118
(27) MAGALHÃES, Arlindo de, 1995 – “A Compostela, por caminhos e caminhos…”, Ob. cit., p. 337
(28) MARQUES, José, 1997 – “Viajar em Portugal nos Séculos XV e XVI”, Ob. cit., p. 102; 110-112
(29) Este trovador, clérigo e provavelmente de origem galega encontra-se activo em finais do século XIII. TAVANI, Giuseppe, 1992, A poesía de Airas Nunez, Vigo, Editorial Galaxia. In Cantigas Medievais Galego-Portuguesas. Cantigas Medievais Galego-Portuguesas. Disponível em: < http://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?pv=sim&cdaut=16> [consult: 13 de fevereiro 2014]

Data publicação 10-04-2014
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